ANO 9 Edição 97 - Outubro 2020 INÍCIO contactos

Hang Ferrero


Textos    

Substrato

o plano: fugir da fome.
um respiro: o medo.
o escuro fere os olhos,
sobra o vazio no cômodo.
quatro paredes e, rasgada,
a cortina fecha pra
esconder o nada,
porque a falta de tudo
é o único adorno.
a sede também é íntima.
a mesma que estimula a dor,
que faz soltar a fera
e produz a cegueira,
de que a todos cala.
o trato: sobrará a miséria,
pra máquina humana ter a
notícia de todo dia;
extra! extra! o louco
é preso, por insistir amor.

 

 

 

 

 

 

 

 

Versus

uma dor demasiada longa
esforçada e absurda
perseguidora e cruel
subversiva e fingidora
de certa castidade
à infringência
da estética de gullar
dor feia! esbravejo
suma daqui! brado eu
persecutório
não vejo interesse
a viajar com um
taciturno caronte
sejas pó! acredito conclamar
meus apelos ressoam
nas costelas
mais dor. é aqui que basta
e apertando os dentes
me dou conta do tanto
que mereço; dor minha
tudo meu!
um torto, um soco, um sopro!
sobra-me redarguir a vida
vou mordê-la e até ossos
até que tudo vire dia

 

 

 

Manípulo

cordas. estou preso; pés, mãos, cabeça.
um engenho; consciência embusteira.
sou forçado a acreditar numa
imortalidade terrestre, e esta, bem sei,
me mata todo dia um tanto mais.
o titeriteiro vira o meu pescoço,
ouço o ranger de cada fibra de cada corda,
estas, roçam os meus ouvidos; violados.
sinto a presença do carcará; voa livre,
acompanhando a minha sombra.
ele não se interessa por mim; observa
o frenesi dos ratos que me assombram.
tenho milhares de páginas no meu ventre,
mas estou preso às cordas, enlaçam
os meus ombros, apertam a minha cintura,
danço – é o que parece – pareço dançar.
um raio probo me livra dos fios,
feito sonho: promete reparo e justeza
e me adverte da beatitude, diz que sou santo.
acordo. o titeriteiro me aponta mais cordas
e os nós do reconhecimento póstumo.
na poesia, estou sempre de partida.

 

 

 

 

Textos

Trechos da minha impaciência XXI

tem um quê de porrada nisso que faço. um quê de menosprezo à covardia que insiste a se insinuar toda vez que meu sonho gera fruição. cresci tanto, que tenho muito mais do tempo e se não
me engano, muito menos também; mais cabelos brancos.

hematoma de todo tom de dor que possa ter doído cicatrizes tão antigas quanto o mapa desta carapaça que engenha um corpo e nele, dentro dele, uns cem caras feito eu; iguaizinhos: persecutórios e bobos. todos quase–humanos.

tudo que dói hoje, doeu ontem também e doerá amanhã; sei disso porque dor, tem memória cativa em mim; aponta a agulha louca e solidária ao limbo, desta bússola que carrego nos pés tortos. culpa de todas as vezes em que a fraqueza montou na minha nuca, pra ver do alto, assoberbou–se pra ocupar espaço e pra garantir um bom lugar entre os soberbos.

eles, os quase–deuses? abandonei–os lá no topo da montanha. descobri que daqui posso ver muito mais de céu e não vejo nada de errado em observá-los daqui de baixo. até ensaio uns gritos de orientação, mas não me ouvem; são quase–deuses.

a dor de hoje se mostra, se dá, porque, velho, pareço rude quando me envergonho de pensar em qualquer coisa assim neste tempo que encaro agora. me causa espanto precisar envelhecer pra franzir a testa.

pra minha sorte, saber um tanto mais de mundo e de tempo, me coloca em vantagem e posso afundar meus calcanhares em cada canto que caminho agora. Nos indicadores; norte, sul, leste, oeste. nos meus bolsos; o novo e o velho mundo e um tanto de loucura. já era tempo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Trechos dos retalhos meus XXXIX

sou um tipo bem comum, de sujeito incomum. tenho problemas com: guarda–chuvas ( de sair de casa com um, apesar da previsão ), mecher com x, mexer com ch, dias da semana…
um tipo de humano afeito à lua; que sofre de vergonhas, mas disposto a fazer coisas que hoje ainda me enrubescem só de pensar, mas que não veria problema de fazer, se evacuassem a cidade; aí, faria.

mas sendo eu, o que já deixei de ser o que fui: já ofereci uma rosa da oferenda pra primeira moça que vi na rua, já subi na mesa do bar ao coro dos amigos que cantarolavam qualquer coisa pra me manter encorajado, até ser expulso do local e ficar com o nome registrado como persona non grata, na portaria. fiz engenharias daquelas classificadas com o termo “até Deus duvida“, bastando me “intizicar” com a frase: eu duvido tu fazer!

também tenho problemas pra: segurar o choro com as propagandas das ong‘s que pedem socorro ao alívio do sofrimento humano; entender a inteligência dos girassóis, segurar o pavor quando ouço o assovio de uma panela de pressão.

mas sendo eu, o que já deixei de ser; quando criança, fiz: poço pra adulto cair inteirinho, como quem prende saci, e saí correndo pra não levar cascudo por conta da “brincadeira“; deixei os amigos esmurrarem o meu peito pra provar que eu era mais forte que qualquer um deles, mas não o mais inteligente.

sou um tipo bem comum, de sujeito incomum até hoje e posso, literalmente provar, provando: qualquer prato exótico tribal desses que sujeitos comuns–não–incomuns só provariam valendo dinheiro ( desde que parecesse gostoso, cozido e bem temperado ), pimenta colhida na cratera de um vulcão ativo, um salto no vazio d‘uma altura do tamanho do céu, mesmo tendo medo de alturas do tamanho do céu.

e sendo eu, o que nunca deixei de ser; da infância até a recente descoberta da presbiopia e de protuberâncias em quatro, dos cinco seguimentos da coluna lombar; ainda vejo com desconfiança coisas como: a relação que fazem do tempo pelo ponto de vista dos relógios ( mário quintana reclamava também ), o “ajuntamento” de capital como modo de vida perfeito e admirável, a admiração por gentes que não se conhece bem, mas que aparentam ter relógios; avessos a mim e ao ponto de vista do quintana.

uma regrinha não minha e em tempo, sem ponteiros: se tem sílaba primeira “me“, usa-se “x” e não “ch“, portanto, me–ch–x–er não é com “ch” e sim com “x” . confuso? é que eu só sei explicar assim e por isso, acho estranho eu ser um tipo comum de sujeito incomum, sendo eu, quem ainda sou…

 

 

Hang Ferrero  
escritor, poeta e produtor cultural

. Autor dos livros: "Aos Pés do Monte Mor"( poesia ) - 2013
                             "Código 1 - Crônicas de Plantão" - 2016
. Co-fundador e coordenador do Grupo de Escritores Verbo e Maresia - 2014
. Apresentador do Festival 6 Continentes (o maior Festival de Artes Integradas de Língua Lusófona do Mundo ) - 2015, 2016, 2017, 2018, 2019 em Itajaí SC/Brasil
. Fundador da Academia Mirim de Letras da ALBSC Seccional Itajaí/SC/Brasil- 2017
. Membro Correspondente Internacional da Academia de Letras do Brasil/Suíça - 2018
. Membro Imortal da Academia de Letras de Balneário Camboriú  SC/Brasil- 2018
. Criador dos projeto "Casa de Ferrero, Espetos de Pau" e "Origens" que consistem em declamar poemas autorais com técnicas do Spoken Word ( poesia falada ), recursos visuais e música conceitual.

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Revista InComunidade, Edição de Outubo de 2020


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Foto de capa:

EDVARD MUNCH, 'Perto do leito da morte (febre)', 1915.


Paginação:

Nuno Baptista


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